LeiLu · 07/11/2026 05:00
Em nova mostra na Pinacoteca de SP, Sara Ramo descortina a vida secreta que existe nos objetos: 'As coisas falam comigo'
Há quem acredite que a vida de um objeto se limite à utilidade ou à duração que lhe foram designadas. Quando o conteúdo acaba ou a forma se desgasta, seu destino é o lixo. Sara Ramo, porém, não é uma dessas pessoas.
Aquilo que para muitos está velho ou esvaziado de sentido, para a artista hispano-brasileira abre caminhos para novas leituras do cotidiano. Em suas mãos, restos de doce, embalagens de remédio, pedaços de tecido, cabelos sintéticos, miçangas, pneus, velas e feltros são reorganizados em composições que provocam estranhamento e fantasia. Diante desse confronto, a artista questiona a lógica utilitária que rege nossa relação com as coisas e propõe uma reflexão sobre os vínculos que estabelecemos uns com os outros por meio daquilo que consumimos.
É a partir dessa perspectiva que ela ocupa um andar inteiro da Pina Estação, na Pinacoteca de São Paulo, com a mostra panorâmica Sara Ramo: A fúria dos resto vivos, que reúne 90 obras, incluindo algumas inéditas. Nascida de mãe brasileira e pai espanhol, Ramo cresceu entre a área rural de Minas Gerais e a vida urbana de Madri. Entre duas culturas e línguas, encontrou na arte uma maneira de expressar o deslocamento que sempre sentiu em relação à própria identidade. “Toda essa confusão de mundos me fez abraçar as contradições e as complexidades da vida.
Nunca fui 100% pertencente a lugar nenhum. Se opino sobre política no Brasil, acham que não sei de nada porque sou espanhola, e se falo qualquer coisa na Espanha, acontece exatamente a mesma coisa”, diz. Ensaio no atelie da artista Sara Ramo para catálogo Levi Fanan/ Divulgação Foi durante suas primeiras experimentações criativas que descobriu nos objetos descartados uma maneira de canalizarsua inquietude.
Antes de iniciar sua graduação, Ramo decidiu viver durante um breve período em Belo Horizonte, como parte de um trabalho de verão. “Ao passar por galerias de arte, tive contato com trabalhos de Leda Catunda e me encantei pelo uso de materiais ‘ordinários.’” A inspiração se consolidou como prática nas disciplinas da Universidade Complutense de Madrid, quando decidiu empregar sacolas de papelão como suporte para suas criações em vez de telas ou papéis de alta qualidade solicitados pelos professores. “Eu já morava sozinha e comecei a reutilizar as coisas que as pessoas jogavam no lixo.” Entre 7 de novembro e 18 de abril de 2027, o público poderá conhecer obras inéditas criadas com materiais descartados pelo próprio museu que recebe a exposição. Ao longo dos últ
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