LeiLu · 26/10/2026 08:46
Belchior, que faria 80 anos, é cada vez mais cultuado, mas a devoção gira em torno do álbum 'Alucinação' e ignora a maior parte da obra do artista
Belchior (1946 – 2017) em imagem da sessão de fotos feitas para a capa do álbum 'Alucinação' (1976), obra-prima do artista Januário Garcia / Divulgação Philips ♫ ANÁLISE ♬ Teve época em que o nome de Antonio Carlos Belchior (26 de outubro de 1946 – 30 de abril de 2017) andou praticamente esquecido, desvalorizado no mercado da música. Foi somente quando o artista cearense resolveu sumir – em exílio errante entre 2007 e 2017 pelo Uruguai e por cidades do interior do estado do Rio Grande do Sul – que Belchior começou a ser redescoberto. Em movimento típico desse mesmo mercado, o culto ao cantor foi potencializado com a morte do artista, aos 70 anos.
E o fato é que Belchior, que completaria 80 anos hoje, segunda-feira, 26 de outubro, permanece como objeto de adoração cada vez maior. Livros, série, cinebiografia dos últimos anos de Belchior, documentário, musicais de teatro e shows em tributo ao artista, têm expandido o culto e o interesse pela obra do cantor. Só que esse culto gira em torno do álbum, “Alucinação”, lançado em 1976 e considerado a obra-prima da discografia do compositor de “Na hora do almoço” (Belchior, 1971), música que revelou o artista em festival realizado há 55 anos.
De fato, quase todo o suprassumo da obra de Belchior reside nas dez faixas de “Alucinação”, álbum em que o artista refletiu sobre o Brasil – e o então já desfeito sonho hippie – sob a ótica angustiada e desiludida do migrante nordestino que saiu da terra natal em busca de um lugar ao sol nas selvas de pedra do Sudeste. Somam-se ao repertório lapidar do álbum “Alucinação” – cancioneiro no qual Belchior expôs urgências e desesperos de uma juventude que, em 1976, via ruírem os ideais alimentados pela contracultura da década de 1960 – algumas grandes canções de alcance transcendental, como “Mucuripe” (1972, parceria com o conterrâneo Raimundo Fagner), “Todo sujo de batom” (1974), “Galos, noites e quintais” (1976), “Coração selvagem” (1977), “Divina comédia humana” (1978) e “Comentário a respeito de John” (1979). Só que quem se interessa por Belchior pode ir mais fundo.
É fato que, como melodista, Belchior pareceu ter perdido a inspiração a partir dos anos 1980, em álbuns mais ou menos irregulares como “Objeto direto” (1980), “Paraíso” (1982), “Cenas do próximo capítulo – 1984” (1984), “Melodrama” (1987) e “Elogio da loucura” (1988). Mas não custa esmiuçar esses discos em busca de lampejos de inspiração. Para quem quer realmente se aprofundar no universo de Belchior em vez de simple
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