LeiLu · 24/10/2026 08:09
"Josephine": filme com Channing Tatum mostra o impacto da violência sexual pelos olhos de uma criança
Aviso de conteúdo: este texto aborda violência sexual e trauma infantil. Josephine tem oito anos e está em um parque quando presencia um estupro. Ela não encontra palavras para descrever o que viu.
Na verdade, sequer compreende o que aconteceu. Pega o celular da mãe e procura o significado de um termo que ouviu dos adultos: "rape", estupro em inglês. O que impressiona, porém, não é sua ingenuidade, mas a incapacidade dos adultos de encontrar uma maneira de ajudá-la a compreender e elaborar o que testemunhou.
O filme de Beth de Araújo, vencedor dos prêmios do júri e do público na competição de drama americano do Festival de Sundance 2026 e selecionado para a competição de Berlim, é construído justamente nesse intervalo: entre aquilo que uma criança testemunha e o que consegue nomear. Leia também A diretora, filha de pai brasileiro, natural de Goiânia, e mãe de ascendência chinesa, parte de uma experiência real. Aos oito anos, ela e o pai interromperam uma agressão sexual em um parque.
O restante é ficção, mas a hipervigilância que permaneceu depois daquele dia é o coração do filme. Josephine (Mason Reeves, em uma atuação que já desperta elogios e discussões sobre uma possível indicação ao Oscar) passa a enxergar o mundo como um território de ameaças. Começa a apresentar comportamentos violentos, e a rejeição que sente por determinados homens é tratada com a lucidez de quem compreende a origem daquele medo.
Araújo propõe uma comparação simples: se um cachorro nos morde, é natural que passemos a temer outros cachorros. A pergunta que ela devolve é muito mais incômoda: por que cabe às mulheres superar o medo da violência, e não aos homens deixar de causá-la? Veja também O trauma que os adultos não conseguem acolher O que mais perturba não é a ingenuidade da menina, mas a impotência dos adultos diante de seu sofrimento.
Os pais, interpretados por Channing Tatum (que está ótimo no filme) e Gemma Chan, agem por amor, mas acabam se perdendo nas próprias tentativas de proteção. Querem preservar a filha, mas não sabem como. Tentam conversar, mas não encontram as palavras necessárias.
Enquanto isso, Josephine continua carregando o peso daquilo que testemunhou, sem conseguir compreender plenamente o que aconteceu. A dificuldade não está apenas em explicar o crime à criança, mas em reconhecer a dimensão do trauma e encontrar maneiras de acolhê-la. Os próprios pais também precisam lidar com o medo, a culpa e a sensação de impotência que passam a fazer parte da rotina fa
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