LeiLu · 03/11/2026 17:27
O direito ao improviso
Sair para caminhar às duas da manhã para organizar os pensamentos. Para um amigo de Rayane Lima, a decisão coube em um impulso. Para ela, ouvir aquela história provocou espanto.
Como assim, andar por São Paulo de madrugada? Ao contar o episódio na edição de Brasília do evento Legados, em celebração aos 35 anos de Marie Claire, a gerente sênior de Políticas de Segurança da 99 colocou em discussão uma liberdade que não se distribui igualmente. Poder sair sem transformar cada trajeto em um cálculo de proteção.
O relato abriu caminho para os resultados de uma pesquisa sobre mobilidade feminina apresentada no encontro. Um dos dados dimensiona o limite imposto aos planos que fogem da rotina: 73% das entrevistadas se sentem inseguras ao se deslocar em horários atípicos por trabalho, seja para chegar mais cedo, seja para voltar mais tarde. Uma hora extra, um evento profissional ou uma mudança de turno exigem, assim, decisões que vão além da agenda.
É preciso saber se haverá transporte, como será o caminho até o ponto ou a estação e quais condições serão encontradas na volta. O direito ao improviso esbarra na necessidade de prever o risco. A pesquisa “O Direito de Ir, Vir e Viver”, desenvolvida pela Indique, em parceria com a 99 e a Think Eva, ouviu 564 mulheres.
O estudo também contou com uma etapa qualitativa com 49 mulheres e entrevistas com cinco especialistas. O objetivo era compreender como as condições de transporte e a estrutura das cidades afetam a circulação feminina. Rayane chamou de “inteligência urbana” o planejamento que acompanha os deslocamentos de muitas mulheres, como escolher o horário de saída, o meio de transporte, o bairro por onde passar e a maneira de voltar.
A avaliação inclui iluminação, movimento nas ruas e acesso ao transporte. Os resultados apresentados mostram como essa antecipação interfere nas escolhas. Entre as entrevistadas, 87% evitam determinados lugares ou regiões por questões de segurança e 63% já deixaram de utilizar algum meio de transporte pela sensação de insegurança.
Outras 68% precisaram sair muito mais cedo do que gostariam por falta de alguma forma de locomoção. O esforço começa antes do primeiro passo fora de casa. Mesmo quando a viagem acontece, ela pode exigir tempo adicional, mudanças de percurso e atenção constante.
A possibilidade de decidir de última hora fica condicionada ao que é considerado viável e seguro. Quando o trajeto fecha portas Para 89% das mulheres ouvidas, o deslocamento afeta as oportunidades às qu
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