LeiLu · 06/11/2026 14:59

Entrelaçamento quântico e psicanálise: quando é preciso rever certezas

Entrelaçamento quântico e psicanálise: quando é preciso rever certezas

Recentemente, uma notícia do Cern — o maior laboratório de física de partículas existente, que opera o LHC (Large Hadron Collider), o maior acelerador de partículas já construído — chamou a atenção do mundo: experimentos encontraram fortes evidências de entrelaçamento quântico entre pares de bósons Z, produtos do decaimento do bóson de Higgs. A observação é muito rara e difícil de ser feita. Para se ter uma ideia, ela aconteceu na dimensão do zeptoverso, onde uma partícula é dividida um sextilhão de vezes.

Em termos simples, a descoberta mostra que o estado de duas partículas entrelaçadas não se reduz a duas descrições independentes, ou seja, o estado de duas partículas não é um dado fixo, mas algo que depende da relação entre elas. Mas, calma, isso não é prova de que “tudo está conectado”, muito menos de que a física explique a mente. Quando uma descoberta obriga a rever o que parecia óbvio Ainda assim, a notícia convida a uma pergunta maior: o que acontece quando uma descoberta nos obriga a rever as categorias com que pensamos o mundo?

Gaston Bachelard dedicou boa parte de sua obra a esse problema. Para ele, a ciência não progride apenas acumulando fatos. Avança também ao romper com evidências aparentemente óbvias e ao corrigir conceitos que, antes úteis, passam a impedir novas descobertas.

Continua após a publicidade Bachelard, chamou essas resistências de obstáculos epistemológicos. E insistiu: cada campo constrói seus objetos e critérios próprios, lição central de sua abordagem regionalista. É por essa via, e não por alguma equivalência entre partículas e pessoas, que podemos chegar à psicanálise.

Freud abalou a imagem de um sujeito consciente de si, transparente a si mesmo, ao mostrar que desejos e conflitos inconscientes participam da vida psíquica. +Leia também: Freud & cia no divã: os debates atuais sobre a psicanálise Continua após a publicidade E se o analista também não for transparente para si? A escola inglesa levou a questão para dentro da própria situação clínica: e se o analista também não for transparente para si? Paula Heimann propôs, em 1950, que a contratransferência — as reações emocionais do analista — não fosse vista só como interferência, mas como possível fonte de informação.

Melanie Klein, com a identificação projetiva, ajudou a pensar processos que envolvem o outro na própria fantasia. E Bion foi além: investigou como experiências emocionais podem tornar-se pensáveis ou, como a urgência de saber pode bloquear o pensar. Continua

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