LeiLu · 07/11/2026 08:56

Quando o discurso da desconstrução vira estratégia de conquista

Quando o discurso da desconstrução vira estratégia de conquista

Uma pesquisa do aplicativo happn com usuárias brasileiras revelou que 74% das entrevistadas afirmam perder o interesse quando percebem que o discurso do pretendente não corresponde às suas atitudes. Nas redes sociais, esse comportamento ganhou um nome: homem performático. A expressão descreve aquele que fala de feminismo, vulnerabilidade e responsabilidade afetiva, conhece o vocabulário da desconstrução e parece utilizá-lo para causar uma boa impressão.

Segundo o levantamento, 38% das usuárias já identificaram pautas sociais utilizadas como estratégia de conquista, enquanto 53% valorizam mais quando os princípios aparecem naturalmente na conversa, sem necessidade de anunciá-los. A preocupação com a imagem que apresentamos ao outro sempre fez parte da sedução. Num primeiro encontro, escolhemos o que contar, omitimos certas histórias, procuramos parecer interessantes e, muitas vezes, nos comportamos de maneira diferente da habitual.

A formulação de Lacan de que o desejo é o desejo do Outro permite pensar na importância que atribuímos ao olhar alheio e ao lugar que imaginamos ocupar nele. Queremos ser desejados e procuramos descobrir o que nos tornaria desejáveis. Os critérios mudam conforme a época, e características como a sensibilidade e a disponibilidade emocional passaram a receber maior reconhecimento nas relações amorosas.

É compreensível que essas qualidades também tenham adquirido importância na maneira como algumas pessoas procuram despertar interesse. Seria precipitado, porém, concluir que todo homem que adota esse discurso esteja deliberadamente tentando enganar alguém. Nem sempre conhecemos as razões do nosso comportamento, e a imagem que fazemos de nós mesmos pode ser bastante diferente da maneira como nos relacionamos com os outros.

Alguém pode acreditar sinceramente que sabe escutar e, ainda assim, ter dificuldade para ouvir quando é contrariado. Pode defender a autonomia do parceiro e se sentir inseguro diante de sua independência. Pode considerar-se emocionalmente disponível sem perceber o quanto evita situações que exigem envolvimento.

É possível acreditar nos próprios valores e continuar reproduzindo comportamentos que os contradizem, sobretudo porque reconhecer uma ideia como importante não significa ter elaborado os conflitos que ela desperta. Freud escreveu que ninguém consegue guardar inteiramente um segredo, pois, mesmo quando os lábios se calam, as pontas dos dedos acabam falando. Nas relações amorosas, nem sempre precisamos procurar

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